Sócrates
A lembrança mais antiga que tenho do futebol é a Copa de 1982. Naquela época, a cabeça dos brasileiros abaixava sob o sentimento permanente de derrota: hiperinflação, dívida externa, desemprego, militares. Quando a roda girava, a gente voltava para o mesmo lugar: FMI, ditadura, dívida externa, terceiro mundo. Sofríamos de uma vergonha pré-plano-real-pré-tetracampeonato.
A vergonha ficava maior diante do êxito de todos os outros países do mundo que apareciam na TV, nos filmes arrasa-quarteirão dos Estados Unidos. E também havia as bandas fodásticas da Europa e os eletrônicos alienígenas da Japão. Jamais seríamos capazes de sermos os mais importantes em coisa alguma. O cotidiano era nossa derrota.
Pelo menos, numa coisa a gente era excepcional: a bosta maravilhosa do futebol. Especialmente em 1982. Era a melhor chance de sentirmos alguma felicidade desde 1970. Dentre aqueles heróis que nos representavam, (muito melhor do que faríamos por nós mesmos) havia o Sócrates. O capitão da seleção (seleção de 1982!, veja só) era também formado em medicina (a faculdade mais foda que tem!, VEJA SÓ). Ninguém era mais chucknorris do que ele. Nem o Chuck Norris era chucknorris naquela época.
Em 1982, eu tinha oito anos e virei corinthiano.